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(Dos Índios
Puris)
A
LENDA DO TIMBURIBÁ
Antes
da chegada do homem branco para povoar as terras do
atual município de Resende, vivia no sopé da Serra
da Mantiqueira, para os lados da Vargem Grande, um
grupo de Puris, cujo cacique era o velho e alquebrado
Poju.
O
Puri Tabara, jovem e valoroso guerreiro, passou a
ambicionar o posto de cacique do grupo e a filha
deste, a bela Jacyra. O velho cacique Poju, percebendo
a dupla ambição de Tabara, tramou a morte do índio
com outro bravo guerreiro, seu valido, e ao qual
destinava a mão de Jacyra. Esta, percebendo a trama
mortal, sabotou o cordão do arco de Imburé, o
guerreiro rival de Tabara. Ao Imburé defrontar-se com
Tabara e ao estirar seu arco para disparar a flecha,
este arrebentou, dando oportunidade para Tabara fulminá-lo
com certeira e mortal seta que traspassou-lhe o coração.
Tabara, a par da trama de Poju e Imburé, reuniu um
grupo de guerreiros para depor o cacique Poju. Quando
ia acesa e viva a luta, Jacyra se interpôs entre os
guerreiros, empunhando um ramo da árvore Timburibá,
que era o sinal de rendição de Poju. Jacyra
intercedeu pela vida do pai Poju e de seus guerreiros,
com o que concordou Tabara, porém com a condição de
que Jacyra deixasse a casa paterna e o acompanhasse.
Assim,
Tabara e Jacyra, com um grupo de guerreiros Puris e
suas mulheres, deixaram a taba e partiram para formar
outro grupo independente.
Deslocaram-se
para a margem esquerda do rio Paraíba, no atual
Campos Elíseos. Dali, após construírem canoas,
atravessaram o Paraíba abaixo da correnteza, que era
muito piscosa, e estabeleceram nova taba na atual região
do Alto dos Passos. Ali, próximo da atual capela,
Jacyra plantou o ramo de Timburibá, com o qual fizera
Tabara e Poju chegarem à paz, e assegurou a vida do
seu pai e seus guerreiros.
O
Timburibá cresceu rápido por interferência do espírito
do bem e da paz. Foi à sombra dele que o casal
Tabara-Jacyra passou a residir e nela a pequena tribo
Puri, que acompanhava o cacique Tabara. Sob o Timburibá
a tribo passou a se reunir para os cerimoniais tribais
e confraternizações.
Mas
em sua sombra a má sorte continuou a perseguir o
casal Tabara-Jacyra. Os dois filhos do casal, que não
se criaram, foram sepultados sob o Timburibá. A Índia
Ingaíba, que amava Tabara, conspirou com o espírito
do mal, para fazer crer a Tabara que sua Jacyra o
estava traindo com seu amigo, o guerreiro Potiá. Sem
nada averiguar, Tabara, secretamente, matou Potiá e
deixou que uma onça canguçu bebesse o seu sangue em
uma das grotas do maciço Itatiaia(pedra em forma de
agulhas), onde abandonara Potiá.
Imaginado
Tabara que o filho no ventre de Jacyra fosse de Potiá,
fez com que esta bebesse, sem o saber, um chá
abortivo. Duas horas decorridas, Jacyra abortou o
filho e, ao contemplá-lo, Tabara viu seus traços
fisionômicos. Quando sepultava o filho sob o Timburibá,
Tabara perguntou a Jacyra:
-
Tu amas Potiá? - Não. Ele vem aqui porque é teu
amigo e sai triste, quando não te encontra. Então
vai procurar-te nas brenhas do Itatiaia, de onde, até
agora, não retornou.
Foi
então que Tabara confessou a Jacyra que matara Potiá.
casal discute e Jacyra defende sua fidelidade. Tabara
convidou Jacyra para consultarem o espírito do bem,
que se esconde sob a Pedra Sonora, na atual Serrinha.
E o espírito do bem revelou toda a trama de Ingaíba
com o espírito do mal.
Anhangá,
o espírito do mal, perturbou a cabeça de Tabara.
Potiá e Jacyra nunca se amaram. Ingaíba, a invejosa,
é que ama Tabara sem que ele o saiba. E foi para
conquistar o amor de Tabara que ela armou toda esta
trama trágica.
Tabara,
agora convicto da fidelidade de Jacyra, propôs-lhe
capturar Ingaíba, para que, a quatro mãos, a
matassem moqueada ou assada nas brasas. Jacyra
preferiu que Ingaíba vivesse, pois bastava o sangue
de Potiá, que Tabara, criminosamente, dera à onça
canguçu para beber, para atrair para a cabana deles
sob o Timburibá, os raios de Tupã encolerizado pelo
crime de Tabara.
Jacyra
não teve mais filhos. Foi tomada de imensa tristeza e
começou a definhar. A notícia de que seu velho pai
havia morrido, vítima de um incêndio em sua cabana,
sem socorro, por não poder mais caminhar, fez
retornar as mágoas de Jacyra. Assim, quando Tabara
saiu para uma longa excursão, certa noite, uma coruja
no topo do Timburibá deu o seu sinistro e tétrico
pio de mau agouro.
Jacyra
levantou-se. Apanhou uma pequena cabaça com veneno e
foi para junto do tronco do Timburibá onde, à luz de
uma pequena fogueira, pintou três quadros no tronco
da árvore, em meio a choro, convulsivo. A seguir,
ingeriu de um sorvo só a cabaça de veneno e, em
pouco tempo, morreu estirada e abraçada nas
sepulturas de seus dois filhos. E foi assim que, no
outro dia, Tabara a encontrou, suspeitando desde longe
de alguma tragédia, por ver o Timburibá apinhado de
urubus. A seguir, depois de contemplar os quadros
esculpidos por Jacyra, entendeu tudo.
No
primeiro quadro, Jacyra representou um velho
alquebrado e desesperado ao ver uma ave de rapina
levar nas garras uma pomba e sem nada poder fazer. No
segundo, a mesma ave de rapina abrindo o ventre da
pomba. No terceiro, uma mulher ingerindo o líquido de
uma cabaça e, coma mão direita, despedindo-se de um
guerreiro que chorava. Tabara foi tomado de grande
desespero e tentou suicídio, batendo a cabeça no
tronco de Timburibá, até o desmaio. Refeito, deu
sepultura à Jacyra, ao lado da dos filhos. Antes de
cobrir a esposa com terra, fez sangrar seu peito com a
ponta de uma seta e deixou o sangue jorrar sobre o
corpo de Jacyra. Coma as mãos postas voltadas para
Jacyra murmurou soluçando estas palavras de pedido de
perdão:
-
Jacyra, eu te suplico, perdoa meus erros como
perdoastes a malvada Ingaíba. Lava com meu sangue a
injúria que fiz à tua inocência! Potiá, bebe
algumas gotas do meu sangue para fortalecer o braço
da tua vingança! Poju, abençoa o meu sacrifício
sangrento com as tuas mãos de pai comovido!
Tabara,
em seguida ao sepultamento, disparou a correr
alucinado. Por muito tempo curtiu seus remorsos. Um
dia, foi encontrado morto no rio Paraíba. Os
guerreiros Puris, que liderara um dia, o sepultaram ao
lado de Jacyra e dos seus dois filhos, à sombra do
velho Timburibá plantado por Jacyra.
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